Tenho de admitir que existe uma pressão social para parecermos/sermos de uma certa maneira: há um padrão de beleza, um comportamento ideal e um determinado estatuto a que só se chega com uma certa quantidade e qualidade de coisas que se possui. E podem considerar-me fútil e influenciável, mas a verdade é que os meus distúrbios alimentares começaram em tenra idade, na procura de preencher estes requisitos que, inconscientemente, me chegaram. Eu tinha de, pura e simplesmente, pertencer e quantos mais feedbacks positivos recebia, melhor.
Ainda hoje tenho a obsessão da magreza, do corpo feminino como sendo frágil, leve e pequeno, pois continuo a ouvir o desejo das mulheres em geral para este estereótipo. Amigas, conhecidas, mães, tias, avós, primas... O certo é que são as mulheres que alimentam esta "mania" ao fazerem e darem tudo por tudo para atingirem esta perfeição de beleza. E se somos nós que temos este poder de persuasão, não tenho dúvidas que, em conjunto, conseguiríamos quebrar estas correntes que nos limitam e destroem, tanto o corpo como a alma.
Contudo, os meus longos anos com distúrbios alimentares e as suas várias facetas (anorexia, compulsão alimentar, ednos) reduziram a noção de magreza a ser somente a recompensa, à deliciosa recompensa, confesso. O que me prende a estes comportamentos auto-destrutivos hoje em dia é mais do que o simples desejo de ser magra (embora, novamente, seja ainda este o meu patamar de excelência). Eu venero a dor que a fome me traz, as tonturas por não comer, o vazio físico sobrepondo-se ao emocional e, sobretudo, o auto-controlo. Portanto, magreza = controlo, magreza = dor física, logo magreza = recompensa merecida e desejada.
É claro, os episódios compulsivos são muitas vezes irresistíveis por também várias razões. Ora vejamos, um único episódio de, usando o termo inglês, binge eating preenche instantaneamente o vazio físico ao mesmo tempo que me deixa embriagada, "com a moca"; e, não menos aditivo, é a minha desculpa para me refugiar no meu quarto, fugindo de todos os medos do mundo exterior - que nem eu própria sei bem quais são. Mas todo este prazer momentâneo, que pode durar 1 dia, uma, duas semanas, ou até meses (anos...?) trazem a carga negativa da culpabilidade, do descontrolo total das minhas acções, um sentimento de imundice e falhanço. E, assim, nada melhor que a fome.
Como sair deste ciclo que me destrói, sabendo que eu tanto o venero como odeio?
Este ganso nasceu para ser gordo. Todo o seu organismo está programado para uma certa gordura corporal que fogem do estereótipo de beleza estipulado pela sociedade. Mas o ganso resolve protestar consigo mesmo e entra em regime alimentar - ora ignora todos os sinais da fome de forma rebelde, ora manda tudo à fava e enfarta-se até ficar bem gordinho. E foi assim que ganhou a alcunha de Sísifo!
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terça-feira, 17 de maio de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
Com medo do amanhã...
Aqui estou eu, submersa na sensação de falhanço, desilusão, descontrolo... Aqui estou eu, mais uma vez, com urgente necessidade de me auto-castigar sem saber como. Aqui estou eu, zangada e frustrada comigo mesmo, rezando a ninguém em particular, pedindo um sono longo para não ter de enfrentar outro dia. Pois é, acertaram, tive uma compulsão alimentar esta noite. Mais uma para a vasta e já incontável lista de episódios compulsivos. E agora?
Bem, da minha mente oiço apenas uma resposta, e só esta faz sentido, é incontestável, é milagrosa, é o primeiro e mais sábio mandamento/regra/lei: amanhã passarás fome! Até o meu corpo reage fisicamente a esta ideia, como se de uma solução para todos os meus problemas se tratasse, sinto os meus músculos contorcerem-se com ansiedade pelo dia de amanhã, para poder passar fome, para me poder controlar, para poder compensar o erro (nojento) de hoje, para me castigar. Ultrapassando este próximo dia de estômago vazio sei que serei mais forte, mais capaz, mais digna da vossa (sejam vocês quem forem) companhia, enfim, estarei um pouco mais próxima da perfeição.
Até aqui tudo muito bem, o plano é simples, directo e perfeito. Mas, agora dou-me de caras com o verdadeiro problema, como vou escapar ao almoço de família amanhã? E, pior, como vou ter coragem da ida à praia com esta barriga inchada, gordura acumulada, banhas que abanam, celulite que mais parece uma colónia de formigueiros? Como vou esconder o descontrolo desta noite?
Questões que me esgotam, massacram, que fazem parte da rotina, que não me deixam respirar livremente, que me impedem de focar em assuntos normais, de pessoas normais. Dilemas considerados fúteis para muitos, mas obsessivos para pessoas como eu. Enfim, perguntas cuja resposta só o temível amanhã me dirá. E hoje já sei que o que acontecer amanhã será auto-destrutivo:
Bem, da minha mente oiço apenas uma resposta, e só esta faz sentido, é incontestável, é milagrosa, é o primeiro e mais sábio mandamento/regra/lei: amanhã passarás fome! Até o meu corpo reage fisicamente a esta ideia, como se de uma solução para todos os meus problemas se tratasse, sinto os meus músculos contorcerem-se com ansiedade pelo dia de amanhã, para poder passar fome, para me poder controlar, para poder compensar o erro (nojento) de hoje, para me castigar. Ultrapassando este próximo dia de estômago vazio sei que serei mais forte, mais capaz, mais digna da vossa (sejam vocês quem forem) companhia, enfim, estarei um pouco mais próxima da perfeição.
Até aqui tudo muito bem, o plano é simples, directo e perfeito. Mas, agora dou-me de caras com o verdadeiro problema, como vou escapar ao almoço de família amanhã? E, pior, como vou ter coragem da ida à praia com esta barriga inchada, gordura acumulada, banhas que abanam, celulite que mais parece uma colónia de formigueiros? Como vou esconder o descontrolo desta noite?
Questões que me esgotam, massacram, que fazem parte da rotina, que não me deixam respirar livremente, que me impedem de focar em assuntos normais, de pessoas normais. Dilemas considerados fúteis para muitos, mas obsessivos para pessoas como eu. Enfim, perguntas cuja resposta só o temível amanhã me dirá. E hoje já sei que o que acontecer amanhã será auto-destrutivo:
- Se não comer, estou a preparar uma cilada ao meu corpo para uma compulsão num futuro muito breve (já para não falar na destruição massiva da minha saúde a longo prazo);
- Se comer, a minha mente obsessiva irá deixar-me irritadiça, deprimida e no tão detestável transe comer-tudo-o-que-me-aparecer-à-frente.
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